quarta-feira, 20 de abril de 2016

Do Amor Impossível (dito por Jorge Pereira)




Dito por Jorge Pereira, companheiro de incursões poéticas, a quem agradeço o privilégio




Do amor impossível diz-se invisível sua inevitabilidade

Como te dizer deste amor intransparente, que, sendo evidente, visível não é
Como incandescer tal translúcida chama

O amor é sempre imprevisto, sempre surpreendente, sempre-sempre indeclinável
Como negar a incerteza que se oculta na tua necessidade

Sinto-te num sonho profundo, memória num tempo-porvir, espera sem sequer suceder

Do amor impossível diz-se visível sua impossibilidade

Da descrença e das suas invisibilidades ocupam-se os passos das sombras
Num desvendar de névoas desnudo tua claridade, corpo-contraluz contendo minha densa escuridão

Do amor impossível digo ser visível sua inevitabilidade

Como contradizer este luminar sentir
Como extrair a rara luz da luz exacta 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Morte






Pensa no mais vasto espaço que consigas imaginar
Posiciona-te ao centro, precisamente
Nem um horizonte avistarás
Retira da integralidade todo o objecto, um a um  
Suprime o tom violeta, o vermelho e o branco e toda a remanescente cor
Por um momento preserva somente um negro incolor, até que também este se dissipe
Segmenta do som todo o timbre, inibe qualquer ruído, a tua im-própria pulsação
Da percepção elimina a evidência restante
Anula a memória e a posteridade incógnita
Liberta o corpo do seu constrangimento im-próprio            
Encerra o olhar, suspende a respiração
Finalmente rompe o pensamento, inteiramente


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O PESO DOS PASSOS DADOS







O tempo é insustentável
(e o corpo não o sustém)

Pesa o passo mais que seu próprio peso
Pesa o passo dado e o que ainda nem se deu

Angustia-se a angústia em sua necessidade, intrínseca
Abate-se a crença em sua incerteza, inerente

Sim, insustentável é o tempo
(e a sua divergência não o sustenta)

A “noite terrível” será talvez obscura, terrivelmente
Sempre que o passado sobrevier no tempo, terrífico talvez


domingo, 6 de dezembro de 2015

ALÉM DAS FORMAS VISÍVEIS


Se o horizonte é o limite (da tua visibilidade)
Prolonga-te para além das formas visíveis

Num deslocamento intangível, estende a distância,
Distanciando-te, da perspectiva constante

Transcende a dimensão concrecta
Excede tal sensitivo constrangimento
Da incógnita evidência ignora a evidente percepção

Suprime dos convénios todos os limitados índices  
Desacredita toda a utopia reconhecida
Eleva-te acima de um mundo menor

Verás que todo o imaginário é plausível
E que nenhum delírio é ampliado

Alcançarás a dimensão não circunscrita do amor não transgressor


segunda-feira, 27 de julho de 2015

INCIDENTAL


Um pensamento último antediz o silêncio
Antedizendo os tempos longos, densos, pesados

A morte morre sempre lentamente e a ausência nunca é só

Sobrevivem viventes memórias num pesar perseverante
Avivando num olhar doído a dor d´esvaído olhar

Subsistem instantes supostamente decaídos 
Infindavelmente revividos em dividido tempo

A inexistência é       súbita
Numa pluralidade d´ausências, subitamente é     presencial

Na irrevogável privação da imortalidade 
No interior de um tempo irreversível 
Na tessitura de sobrevir sem sentido
Se reescreve, póstuma
A desavença da incidental sobrevivência