domingo, 18 de abril de 2021

QUEBRA-SE UM PRECIPÍCIO CAINDO




Quebra-se um precipício caindo

Precipitando o corpo decaído

Fragmentando a queda nos braços

 

Abre-se meio veio e súbito verte vermelho

Disseca-se a dor nas fracções subcutâneas de um grito

Por dentro inscrevendo a cicatriz à memória lembrando

 

Perpetua-se a pedra perfurante

Parte-se a perda partindo

 

Suspende-se a porosidade dos passos interrompidos

Alongando o andamento lento de um tempo sanguilíneo

 

Quebra-se um precipício caindo

Ultrapassando a dimensão terrena

Permitindo que perdure             interiormente

 

Parte-se a perda partindo

Esculpindo no precipício os alicerces do movimento

 

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Um beijo à noite na palma da mão

 

Não te sentirei num poema só

Estiveste sempre acima do verso

Pertíssimo da plena plenitude

Assim debruçada sobre o precipício

 

(… um beijo à noite na palma da mão …)

 

Eras a mãe-menina saltitando pela moldura

no rebordo de um mundo enclausurado anteriormente

O movimento que rasgava o horizonte para além do infinito

A luz incindindo radiosa sobre eu-criança

 

(… um beijo à noite na palma da mão …)

 

“Cinco espaços”, “Seis momentos”, sete medos e mais versos

Tua voz fluindo pelas falésias sublimes

Nove meses vezes três

Teu corpo incorporando noutro corpo corpo teu

 

(… um beijo à noite na palma da mão …)

 

Aquietaste os emudecimentos trémulos da fragilidade humana

Desdizendo a subversão frenética desta terra

Resististe à desordem indigna com a candura dos poetas

Sossegando-a em teus braços

 

 (… e um beijo à noite na palma da mão …)

 

 

Por vezes a vida evade-se em brasa incandescente

Subsistindo ardente à aflição do retorno

Resistente somente à impossibilidade do tempo atrás voltar

 

A vida é inviável

quando a tristeza que comove ternamente nos enlaça


Para além do tempo um poema é quase nada


Nenhum de nós te sentirá num poema só

Mãe-Metáfora

 

(… um beijo à noite na palma da tua mão …)

 

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Um Frágil Feixe de Luz

 

Por detrás de um olhar (fechado)

esconde-se um mundo inteiro flutuando num frágil feixe de luz

às pálpebras cerradas desvelando

as formas caleidoscópicas do amor


quarta-feira, 7 de outubro de 2020

A ABRUPTA EXTINÇÃO DAS UTOPIAS




Andamos adentrando denso nevoeiro

Sentindo-nos dispersos entre nossas próprias névoas

Algures perdidos no tempo   atravessamos a noite interior   num andamento inacabado

Trespassando incessantemente esse dúbio espaço 

                                          por dentro acalentando tal negro remorar

No ardor das fagulhas às cinzas soprando   a abrupta extinção das utopias





terça-feira, 11 de agosto de 2020

à i/mortalidade


Se fôssemos centro seriamos semente dentro

Seriamos certamente uma singularidade

Uma detonação circular irrompendo inesperada

Um suicídio quântico impugnando a probabilidade

 

E se essa singularidade nos unisse

Seriamos certamente o imprevisto evento

A implosão mais distante da uniformidade

Uma luz luminar irradiando do centro, dentro ensombrando a luz angular

 

Se fôssemos centro seriamos por dentro semente

Seriamos infindavelmente

Uma singularidade sobrevivendo à i/mortalidade