domingo, 2 de março de 2014

Circunscrevendo um Esquecimento




Num preciso instante o tempo é preciso
quando o movimento do mundo   precisamente invisível
faz convergir as horas  autónomas   os espaços  lassos   os percursos  dispersos
em circunstancial coexistência


Na simultaneidade surgem as silabas   as consoantes    as palavras
Na convergência acercam-se passos   intersectam-se traços
Irrompe o ângulo


O tempo é abreviadamente escasso
Uma breve impertinência      impermanente
Que   lentamente   se dissolve na memória
Inóspito depósito de indizíveis incongruências

 «Nunca te esquecer sem te lembrar»


As palavras estendem-se num eco errante
Escutam-se   confundem-se   enredam-se
Enleiam-se no sopro de um vento adverso
Sussurram-se como liturgia fúnebre de um mito

( Mortas   as palavras são rosas)


As palavras ateiam-se   inflamam-se    explodem
Deflagram no corpo exposto   ao passado

Todo o termo é instável movimento
Assim como oscilante é a raiz do medo   
                                                           que nos forma
                                                                                  Indefinido pêndulo
                                                                                Irregular compasso
                                                                            Inevitável fissura


E se    num acaso    um rasgo rasga o tempo
Logo uma fenda  no tempo se pretende     (amplitude)


Na palavra concreta          incerta
Na distância incerta          constante
Na palavra que aguarda        distante


Digo horas vagas vazias
Digo indefesa inerte implosão
Digo transgressão


Escrevo
Catarse circunstanciada circunscrevendo um esquecimento
(quase caminho)
Verso verso    cinza cinza   passo passo


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

CONTRA-CORRENTE (Uma Neurótica e Autocrítica Proposta Linguística para uma Neo Linguagem)





(Leitura de Ana Celeste Ferreira
a quem muito agradeço a honra e o privilégio)





Poderia retomar do verso singular a sua singular simplicidade
Abdicar da intangível abstracção que não se alcança
Renunciar à morfológica anatomia de uma linguagem  
Cessar este recurvado curso contra a corrente


Poderia desconstruir-me numa estrófica desconstrução
Sucumbir à singularidade linguística de um neo-poema
Fraccionar o verso-
- uno numa dualidade de linhas fragmentadas
Render-me ao objecto concrecto da antístrofe  
(Objectivamente ceder)


Poderia resgatar       talvez até instintivamente     a instintiva percepção de uma rima-refrão
Recuperar    quem sabe      a sonoridade interior de uma canção entristecida


E, talvez, a vírgula devolver ao devoluto lugar,
(ponto final não)
Pontuar assim os sinais, acentuando-me,  
Desobstruir-me ocupando o espaço,
Assinalar as dúbias reticências de uma grafia abatida


A propósito de uma proposição, (...),
Previamente prescindir da prévia representação
Desnudar todas as hipérboles, descerrar todas as metáforas,
Prosar-me, sem ênfase, num poema pós contemporâneo


E em concrecto escrever-me num concreto neologismo lexical,
Erguer-me na erudita vanguarda de uma imagética retirada,
Circunscrever o exacerbado excesso à exacta dimensão da palavra


Talvez assim, pudesse ser finalmente poeta
E, então, num translucente verso-dizer-te
O que poderíamos Ser


sábado, 4 de janeiro de 2014

A Nocturna Vigília do Pranto Oculto das Sombras





As sombras invadem um mundo como hordas semblantes   
Povoam abandonados espaços    
Apossam-se na escuridão   da escuridão da luz errante

Em taciturno caos avultam-se decrépitas figuras
Silhuetas de destituídos contornos
Esbatidas no retraçar de um símbolo   inscrito em infinitos círculos

Cingidas   as sombras agigantam-se    inclinam-se sobre o corpo    abatem-se sobre a face

É íngreme o caminho conducente à ascensão
A nocturna vigília do pranto oculto das sombras


As sombras apoderam-se da razão como hordas errantes
Avolumam-se no obscurecimento da memória 
Apartam da luz   a luz semblante da escuridão

Iluminadas    as sombras são labaredas insanas  
Silhuetas esparsas de um fogo
Incêndios ocultos no corpo  

Inquieta é a noite que se estende num sibilar de vento infame
Débil é o desígnio ocluso que se sente silêncio impronunciado

Silenciadas   as sombras arrastam-se    contraem o rosto    desabam sobre o corpo

Árdua é a crisálida do monocroma de uma lágrima
Na nocturna vigília do pranto oculto das sombras


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domingo, 17 de novembro de 2013

A Constante Inconstância de Um Caminhar




Entardece o tempo oculto    traço a traço     
Enquanto a vida   rasurada   se reescreve
Na insensatez de um verso encoberto  


Existimos na inevitabilidade de um poema
No contraponto oposto de um canto
No contratempo de um andamento suprimido
Na constante inconstância de um caminhar


Enquanto  inerte  o tempo acontece   deixando-nos para trás


Tudo é estreito   quando  das escolhas   sobram as sombras
Quando dos caminhos recolhidos   sobeja uma subterrânea via
Que  ao longe   se estende     Obstruída


Existimos na inevitabilidade de um poema abandonado
No interior de um verso volátil
Na frívola ambiguidade de uma esventrada utopia
Na evocação permanente de uma eternidade cansada


Somos do eco a imprevisível propagação 
A disseminação indevida de afastadas palavras
A teorização de uma caligrafia fundada na regra do infortúnio
Multiplicando rumores na razão desordenada


Escutamo-nos na subtileza confessional de um verbo
Existimos no mudo clamor da súplica intemporal


Somos o verso escuso     a promessa vã
O imprevisto discurso de uma desistência
A recusa de um indeclinável destino
A flagrante fraqueza de uma renúncia


Existimos na inércia de um adiado tempo
Na constante inconstância de um caminhar

Na púrpura denúncia de um perpétuo amor
 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Insondável Distância de Um Abismo






Da sombra sou a profundidade
A raiz negra da escuridão alastrando invisibilidade

Do tempo sou o arco que se dobra
O difuso contorno de um vestígio longínquo



É insondável a distância de um abismo
O alongamento do tempo tangido num rasto invisível
                                                               progressivamente distante



Não são os séculos que nos formam
               numa narrativa de irremediável ausência

É a divergente equação de uma incerteza
                             caminhando contra o esquecimento

«Não olhes para trás   
Nunca olhes para trás
A memória é um divino inferno de horrores»



É intangível a superfície de um reflexo
             que na sombra se oculta por completo
iniciando incomum movimento
distanciando o tempo



É incalculável a extensão de um precipício
              que se mede numa escala de fissuras
na dimensão dizível de uma ruína  
                                                     brecha a brecha   
                                           na pedra rasgada



É inegável a fragmentação do solo
A segmentação irrefutável das épocas
                                  A fissura que rasga o corpo



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