domingo, 2 de março de 2014

Circunscrevendo um Esquecimento




Num preciso instante o tempo é preciso
quando o movimento do mundo   precisamente invisível
faz convergir as horas  autónomas   os espaços  lassos   os percursos  dispersos
em circunstancial coexistência


Na simultaneidade surgem as silabas   as consoantes    as palavras
Na convergência acercam-se passos   intersectam-se traços
Irrompe o ângulo


O tempo é abreviadamente escasso
Uma breve impertinência      impermanente
Que   lentamente   se dissolve na memória
Inóspito depósito de indizíveis incongruências

 «Nunca te esquecer sem te lembrar»


As palavras estendem-se num eco errante
Escutam-se   confundem-se   enredam-se
Enleiam-se no sopro de um vento adverso
Sussurram-se como liturgia fúnebre de um mito

( Mortas   as palavras são rosas)


As palavras ateiam-se   inflamam-se    explodem
Deflagram no corpo exposto   ao passado

Todo o termo é instável movimento
Assim como oscilante é a raiz do medo   
                                                           que nos forma
                                                                                  Indefinido pêndulo
                                                                                Irregular compasso
                                                                            Inevitável fissura


E se    num acaso    um rasgo rasga o tempo
Logo uma fenda  no tempo se pretende     (amplitude)


Na palavra concreta          incerta
Na distância incerta          constante
Na palavra que aguarda        distante


Digo horas vagas vazias
Digo indefesa inerte implosão
Digo transgressão


Escrevo
Catarse circunstanciada circunscrevendo um esquecimento
(quase caminho)
Verso verso    cinza cinza   passo passo


13 comentários:

  1. Amigo poeta:

    o seguinte e profundo verso "nunca te esquecer sem te lembrar" é fabuloso , sem jamais desmerecer todo o conjunto poético que com mestria aqui escreveste. Parabéns.Abraço.

    Como muito bem observou W.Shakespeare :
    "Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te."

    Bravo, amigo Filipe!

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  2. Percorri nos versos o canto ao tempo,as palavras,a memória

    e vida-caminho.

    Assim,o poeta confessa,o tempo é:

    "Uma breve impertinência impermanente."

    Onde:

    "As palavras estendem-se num eco errante."

    A memória circunscrevendo um esquecimento:

    "Nunca te esquecer sem te lembrar"

    Me remeteu a uma frase de música do Tim Maia:

    "Pensei até em me mudar para um lugar que não exista

    o pensamento em você..."

    E um caminhar, quase caminho, de versos de amplitude de

    singularidade (cinza), passo a passo na transgressão dos

    significados paralisados na linha do tempo...

    Gostei imensamente,Filipe!!

    Bjo.

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  3. CONVITE
    Passei por aqui lendo, e, em visita ao seu blog.
    Eu também tenho um, só que muito simples.
    Estou lhe convidando a visitar-me, e, se possível seguirmos juntos por eles, e, com eles. Sempre gostei de escrever, expor as minhas idéias e compartilhar com as pessoas, independente da classe Social, do Credo Religioso, da Opção Sexual, ou, da Etnia.
    Para mim, o que vai interessar é o nosso intercâmbio de idéias, e, de pensamentos.
    Estou lá, no meu Espaço Simplório, esperando por você.
    E, eu, já estou Seguindo o seu blog.
    Força, Paz, Amizade e Alegria
    Para você, um abraço do Brasil.
    www.josemariacosta.com


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  4. Uma estrada de tempo cansado
    Necessário ao caminho
    Como preciso destino que o tempo dita
    Onde as palavras se enredam como heras
    Que secam na procura do muro
    Esquecendo que o solo sempre o é

    “ nunca te esquecer sem te lembrar ”

    A impossibilidade de lembrar algo que sempre está presente,
    Como respiração

    E talvez em errado verso
    O poema se desconstrua
    Errado não,
    Porque “mortas as palavras são rosas”
    Esquecidas, não importa onde…
    Só que chamas, deflagram
    Ainda que indefinido seja

    O tempo é verso
    E o verso voz
    Apagando o rasto de um dia.

    Para mim de uma beleza única e tua.
    Perfeito, ler cada verso.

    Beijinho

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  5. "Mortas as palavras são rosas"...
    Nunca as palavras morrerão, enquanto existirem poetas. As rosas nunca serão esquecidas, nem tampouco lembradas, porque são vida a fluir ao longo de versos sublimes num imenso e grande poema.
    Adorei visitar o seu espaço. Parabéns!

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  6. Olá Filipe, é o seu um dos blogs mais lindos que já li, vou continuar lendo-lhe, para aprender cada vez mais.

    Os poetas português, são para mim, uns dos mais admiráveis e sábios.

    Se pudesse tocar o tempo, e lhe rasgar os véus das impossibilidades, diria-lhe: Quero apenas ser feliz!!! :)

    Muitos abraços pra ti

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  7. ''o tempo é abreviadamente escasso...'' para te ler.
    mas sei as pétalas das horas mortas ( que são rosas negras de não esquecimento)
    conheço a catarse da escrita, cinza a cinza, as letras que fazes palavras de fé.
    adivinho-te o peito em fogo. a boca seca e o olhar para lá do infinito, onde moram as memórias.

    Sempre um privilégio ler-te.
    B
    e
    i
    j
    o

    não abreviado.

    (o comentário anterior tinha um erro)

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  8. Poeta

    Pudesse o tempo ter mais tempo e as memórias serem rosas vermelhas de sedução...talvez assim o poeta pudesse prender nas mãos o infinito.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  9. E eis-me a ler:
    "Verso verso cinza cinza passo passo"

    Maravilhoso!

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  10. Memória, inóspito depósito... Gostei, Filipe.
    Beijos!

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  11. as palavras, o tempo, o vento. que delícia, que vontade de "quero mais"
    dentrodabolh.blogspot.com

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  12. Tentativa de delimitar o espaço memória? Foi o que primeiro me ocorreu ao atentar no título. Contudo, versificando magistralmente na tua peculiar discorrência sobre o que for, o poeta confessa que apenas num breve instante se poderá “circunscrever uma memória de” – nunca nada se esquece ; os especialistas da matéria, conforme as escolas, acomodam-nas num qualquer lugar e, de facto, o tempo diacrónico pode atraiçoar a nossa memória. Nesta sequência enquadro este verso “Nunca te esquecer sem te lembrar”, aparentemente antitético…
    Ainda que queiramos centrar sincronicamente algo, tudo aparece em simultâneo. Daí a necessidade de treinar a concentração (talvez a escrita de um poema seja o seu grau máximo). E as palavras serão sempre pobres face à dimensão do que se sente, do que se quer exprimir (todavia aproximas-te bastante pela tua exímia adequação vocabular e colocação da palavra no verso). Não são mensuráveis com o tempo, o universo. Por isso são necessárias tantas linguagens para nos aproximarmos do incompreensível…
    Colocar em poema a complexidade e riqueza dos teus inquietantes questionamentos, é uma tarefa hercúlea. Igualmente inquieta me deixas… Deixo-to, relevando
    "Escrevo
    Catarse circunstanciada circunscrevendo um esquecimento
    (quase caminho)
    Verso verso cinza cinza passo passo"
    que entendo como palavras chave do poema.

    Bjo, poeta :)

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