segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pas-de-deux




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I. Entré




«L  o  n  g  o   é o tempo
Estreito é o estrado.
Como um sustado compasso
Assim é o percurso num só passo»



II. Adage



Dos espaços sobra o espaço
O tempo sem lugar
O sonho fátuo
O corpo em fuga

      Dos tempos resta o tempo
O espaço sem lugares
O sonho fugidio
O corpo fugaz



III. Variations



Face a face
Descerro o rosto.                                                      
Nuas sombras sobrepostas                                                               
Testemunho sem memória                                                             

Como um tempo quebrado
Em lento deslizamento.
Passo    após     passo
Desfiz todo o movimento

Assim quebrada me quedo
Entre delidas linhas.
Como um corpo sem contorno
Entre névoas declinado


Rosto a rosto
Desvendo a face.
O relevo retirado
A oclusa obscuridade

Queda após queda
Em movimento me desfiz.
Como um tempo dobrado
No vértice das horas

Assim caído me quedo
Num inerte deslocamento.
Qual gesto incompleto
Inclinado sobre o verso




IV. Finale



«Agitadas águas
Submersas mágoas.
Como um corpo erguido
Recente se anuncia o tempo.

Comme un temps lié
Comme un Pas-de-deux»












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sábado, 14 de maio de 2011

Na Margem Dúbia do Verso







I.


Desta dor nada te posso contar

Por detrás do Sol, todo o mundo é negro

Assim como escuras são as sombras de todas as cores



Os sonhos decaem sem que o sintas

Tombam sem sentido

São errantes lugares

Precocemente entardecidos



O tempo passa

As horas ultrapassam-nos



Assim vamos caindo

Como caem todas as folhas

Como se quedam todos os versos




II.


Desta frágua nada te posso dizer



É flama que extingue

É lama que alaga

É água que afunda



Reclusos passos que nos sepultam

Numa sepulcral clausura

Num claustro de vapores



Fraga sobre fraga

Fumo sobre fumo



Onde cada lágrima é um mundo que se ausenta

Em silêncio



Assim se perdem todos os sentires

Assim se pausam todos os saberes




III.


O tempo é um ciclo de ciclos composto

Decomposto de espaços circulares

Que assomam e se dissipam

Em circunstanciais circunferências

Progressivamente menores



Opaca capa nos aguarda

Enquanto nos guardamos

Num espaço d’ espera

Enquanto nos restamos

No tempo que resta



Na margem dúbia do verso




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