sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

MONOCROMIA








Tempo é espaço,
                              Em desencontro.

Espaço é tempo,
                             Em desacerto.


Lugar
       Onde o sonho se perpetua,
                                              Em sombra.



Negra teia me enleia


Sombreado verso
Onde repouso,
                                             Em silêncio.


Silêncio é voz

Um quase nada
Um rumor
Um amor que me escapa
Uma escarpa
                          Uma
f
 a
  l
   é
    s
     i
      a
    

Um poema na berma
Como corpo s-u-s-p-e-n-s-o,
           Em cordas de vime.


Negra é a cor
Deste deserto deserto,
Em agonia.

Monocromia


Lugar onde o sonho soçobra
                                     E um olhar me retoma
Entre o sonho que sobra



  .

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Em Mim Morrem Todos os Versos






S   o   n   h   o 

Inebriado laço
Traço de meu traço

S
u
s
p
e
n
s
a
Corda
Sufoco


P   a  l  a  v  r  a

Sonoro carbono
Velha centelha
Fagulha difusa
Semente incandescente



P   o   e   m   a

Efabulada rábula
Gárgula
Sacristia
Prece circunstancial



Verso a verso,
 Morrem em mim todos os nomes




M  e  t  á  f  o  r  a

Baptismo
Cismo
Oficio
Vício


Magnificente imagem



Corpos
Sedas
Espasmos

Voz
Labareda
Esplendor

Diletantes papoilas
Pupilas dilaceradas
Devotos votos

Letras secas
Gélida geada
Rasgos de dor



L  i  t  u  r  g  i  a

No rebordo da palavra
No resto que resta
O sonho extingue-se em chama


Folha a folha
Desfolho-me

             Em mim morrem todos os versos


                                                                               


.

sábado, 23 de outubro de 2010

A Queda




Não fales

Nada digas

Nem uma palavra sequer

Queda teus lábios cerrados

Assim  se  quedam  os  meus



Não olhes

Não toques

Não

Não sopres fragrâncias           d´ estio

Queda teu corpo em estátua

Assim  se  quebrará  o  meu



Não escrevas

Não cantes

Não

Não declames do sonho        o verso

Queda mudo teu mundo

Assim  ensurdece  o  meu



Não segredes lugares

Não contes das margens verdejantes

Nem dos vales coloridos        onde plano

Queda teu sonho turvo

Assim  se  escurecesse  o meu



                                                                                                                                 .

sábado, 16 de outubro de 2010

Tempo-Ampulheta







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                                                       Tempo-Ampulheta




Cedo cedi ao mundo as madrugadas
E à noite me entreguei em sombra.
Do mundo queria todos os sonhos
E todos se perderam.
Cinza na ruína dos dias

E assim, que fazer de mim?

Apavora-me
O ruído das fontes
O marulhar das horas
O gotejar do tempo
Passando impassível
Sem me olhar
Sem escutar meu grito
Sem tocar meu choro

E assim, que fazer de mim?

A idade decompõe-se.
 Fracções.
Instantes.
A memória multiplica os dias.
Lugar semi-breve
Marcado em mim.
O espaço-tempo converge e colapsa.
Sufoca-me
O Espaço.
Excede-me
O tempo.
Não sou mais
que um
ponto
.
S
                        O
                                                                            N
                  H
O
.
.
.
Como areia escorrem letras,
Estilhaços.
Versos de vidro e de aço.
Instável
O solo que sustem os dias.
Volátil
O chão que suporta os passos.
Este tempo que me torna
Palavra de pedra
Ânfora quebrada
Desalinhado linho.

Estremeço.
Como se fosse tempo
Recém-chegado,
Como se fosse dor
Recém-nascida
Em permanentes águas.

Bago de uva sem rosa
Meu corpo-urze.
Aro de fogo circular
Cingindo meu redundante pensar.

E assim, que fazer de mim?