terça-feira, 11 de agosto de 2020

à i/mortalidade


Se fôssemos centro seriamos semente dentro

Seriamos certamente uma singularidade

Uma detonação circular irrompendo inesperada

Um suicídio quântico impugnando a probabilidade

 

E se essa singularidade nos unisse

Seriamos certamente o imprevisto evento

A implosão mais distante da uniformidade

Uma luz luminar irradiando do centro, dentro ensombrando a luz angular

 

Se fôssemos centro seriamos por dentro semente

Seriamos infindavelmente

Uma singularidade sobrevivendo à i/mortalidade

 


quarta-feira, 29 de julho de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Cedo só à cobardia


Cansado
Cansado e incapaz 
Incapaz de confrontar os monstros de olhos rosados que à noite se agigantam  

noite sobre noite
Afadigando ternamente
causando incapacitante fadiga

(ah   o deleite diletante da nostálgica melancolia do nosso infortúnio existencial)

agigantando-se 
por ora vírus

sem braços
segmentando mundo numa suspensão secular
Assim Sem Deuses

Incapaz para afrontar tais róseos olhares da besta
 (noite sobre noite)

Cansado
Cansado e desistente

Cedo só à cobardia     hora sobre hora     na soma sendo vida



segunda-feira, 23 de março de 2020

À Distância de um Abraço



Estão desertas as praias da Normandia
estão desertas e vazias

Agora, na linha da frente erguem-se retiros sobre o asfalto
e aqueles que entre nós deram nome à bravura

Quando um sopro é um dedo preso no gatilho
quando respirar ressoa como o silvo de uma bala
quando febril é a ferida que sufoca a esperança
                                                                             
Nós fechados, trancados, esperando, aguardando, guardados
As mãos apartadas à distância de um abraço

O medo propaga-se por contágio
Contagiando o próprio medo
Até que um medo oposto se erga acima dos escombros

Na frente confronta-se a morte inútil
aqueles que entre nós deram nome à coragem  
com o corpo defendendo corpo outro
assegurando
que a vida subsistirá acima da morte

Ao destemor um tributo
Num poema      à distância de um abraço



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O Silêncio Oculto dos deuses


A voz silenciada     desde o início do tempo
o gesto estático dos deuses

O núcleo atómico do pranto de Hiroxima
E os corpos caídos nas planícies de napalm  
Os gritos sufocados de Auschwitz e o gás retido dentro da cal

O grande silêncio    o silencio maior     desde o princípio da Voz
o tempo estático de um rosto imóvel

Ao alto a morada inominada
Na terra a terra assim infértil
e o silêncio oculto dos deuses

O pensamento que se alonga como uma ogiva
um silogismo pertíssimo da implosão

Se os deuses são imagem, os Homens reproduzem-se
humanos e frágeis, sem competência para aperfeiçoar a criação