quarta-feira, 8 de maio de 2019

DIMENSÃO SUSPENSA


Ascendemos ao plano primordial  
Planando sobre o lugar que excede o corpo
Abraçados levitamos até à alta planura
Enlaçados acedemos à luz suprema
Escutando o sopro silente dos deuses
Alcançando a dimensão suspensa

domingo, 24 de março de 2019

IMORAL


Dezasseis mil seiscentos e sete  
Corpos submergidos   
Imersos num ondular sepulcrário
Caídos no subsolo submerso
Onde se quedam esquecidos 
Sepultados no mediterrâneo de um mar tumular

Dezasseis mil seiscentos e sete  
Almas flutuantes da própria fé privadas
Deambulando perpetuamente por uma escuridão líquida
Desprovidas de apropriada luz

“Mare nostrum”, fúnebre berço europeu
“Mar branco do meio”, sitiado entre terras de esperança
Acolhe em teus braços, delicados corpos imersos
Dilui em vítreas águas, submersas lágrimas 
Alumia nessa fluida contraluz, a devida vigília  
Acalenta numa corrente incandescente, a insurreição necessária

Dezasseis mil seiscentos e sete legítimas expectativas ceifadas
Dezasseis mil seiscentos e sete sonhos cessados ocultos

Dezasseis mil seiscentos e sete
Corporizando a ignomínia humana


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

FUNDAMENTO


Ao olhar
Vi o fundo ao fundo do fundo
Era o Nada extremo
Uma negra vastidão imensa   
Prolongando-se para além do limite
Ali inalcançável
O fundamento inalterado    
Imperceptível
Indiferente 
ao Olhar

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

VERTICAL


Parte acima da altura e, depressa, começa a cair
Parte da utopia primordial em direcção ao centro do abismo
Cai num mundo distópico, queda-te por entre as névoas submersas
Primitivamente, cai longamente e devagar -
O tempo somente suficiente para entrever a imensa vastidão de um sonho
Agita os braços, esbraceja freneticamente, crendo no avistamento
(Ascenderias, tivessem teus braços a graciosidade das aves e a precisão dos drones)
Cai e prossegue caindo
Cai na escrita conceptual, que nunca adestra a intrincada arte do voo vacilante
Cai abruptamente numa queda vertical
A atmosfera é ampla, a terra não
Cai prolongadamente e em contramão
Atravessa os ventos adversos e os versos decaídos
Digo queda descontrolada
É inviável medir com precisão a distância que ainda te separa do chão
O tempo encurta e, curto, torna-se vertiginoso
Abreviando o longo percurso de uma queda inevitável
Cai ate à exaustão
Até que te cansas e abdicas das tentativas idênticas
Cedendo ao resigno adiantadamente anunciado
Cai apenas por cair, caindo numa letargia visceral  
Sem temer que o termo se aproxime
Certamente a queda cessará quando chegares ao solo 
Verticalmente      Ao Subsolo  


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Dos Ecos Excedentes Surde o Silêncio



Subitamente cessam as sílabas
Silentes comprimem-se oprimidas
Sufocam-se silenciosamente
Enredam-se como raízes
Elevam-se ascendentemente
Sibilinamente pertíssimo da voz
     
      
Dos ecos excedentes surde o silêncio
Enunciando o eloquente ruído da sílaba muda

Um sussurro interior-mente sibilado
Um nome im-pronunciado
Um silêncio imperfeitamente des-construído


Sucessivamente as sílabas sublevam-se
Segmentam-se sem proporção
Descendem sobre a hora provável
Pertíssimo do prometimento
Sibilinamente Voz


terça-feira, 31 de julho de 2018

Um Rumor Ressurgindo Rosto



 


Por detrás da sombra, subsiste uma luz - perene e inerte
Aguardando que o tempo se distancie das esperas angulares

No interior de tal obscura negrura
Uma flama alumia a fé, um facho fecha a ferida
Afastando as partículas perdidas num passado distante

Dentro da sombra, um traço subleva-se - iluminado
Alinhando sobre a folha a face da afeição
Retraçando o desígnio num percurso paralelo
Alteando sua promissa claridade

Emergindo no poema como símbolo
Um rumor ressurgindo rosto


sábado, 21 de julho de 2018

Ressurreição


a flor fenece murcha
e murcha retoma a terra
um sopro último sopra o pólen
que semeará o solo



                                                         (a meu querido amigo Floriano Mesquita)