quinta-feira, 11 de agosto de 2016

DA CERTEZA PLANA


Da certeza plena resta apenas a ignorância absoluta
A firme convicção de que somente a dúvida é ampla e extraordinária

(A incerteza é profundamente vasta, inteiramente enigmática, incertamente explicável)

Percorrendo demoradamente a negrura do tempo, questionando-o incertamente iluminado
Compreendo, talvez, o aparente desentendimento da existência angustiada

Sobre a certeza plana pairam fragmentos dúbios
Convencimentos ambíguos distorcendo o horizonte de um mundo imaginário
Desconstruindo a oblíqua arquitectura da realidade suposta

Da evidência plena sobra apenas a absoluta divergência
A concrecta demonstração de uma indeterminação abstracta

(Aparentemente compreensível, convenientemente inexacta, evidentemente inexplicável)

O entendimento provém da incerteza e da sua sistemática interrogação

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O TEMPO CONTADO EM VÉSPERAS


E se o universo tempo algum contiver
E o passado não se perder no esquecimento
E se o futuro já passou sem sequer suceder
(Porque aguarda a madrugada?)

Num universo sem tempo, o presente será sempre atemporal
Simultaneamente sobrepondo ao presente passado o futuro pressuposto

E se «O Poema de Julian Barbour» exceder sua própria metáfora
E, num outro presente, agora-presentemente-distante, sua demonstração tiver já sucedido

Num tempo perpetuamente descontínuo 
A memória cronológica será continuamente coexistente
Sincronicamente desvendando em reminiscências, suas intemporais pré-existências
Em sincronia decifrando seu paradoxo primordial

O tempo nunca      « É »          Somente ilusão


E se tal « Sucedimento » transcender sua ilusória alegoria  
O tempo incontido negará sua imprópria predestinação

Contradizendo o princípio do eterno retorno
Ordenando a memória de acordo com sua inconveniência
Inibirá o ruído, silenciando todos os definitivos silêncios  

Então,
Caminharei aleatoriamente pela cronologia do tempo não datado
Outrora alterando a pressuposta pré-existência
Abreviando a distância que determina minha espera
Passando a contar o tempo em vésperas


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Do Amor Impossível (dito por Jorge Pereira)




Dito por Jorge Pereira, companheiro de incursões poéticas, a quem agradeço o privilégio




Do amor impossível diz-se invisível sua inevitabilidade

Como te dizer deste amor intransparente, que, sendo evidente, visível não é
Como incandescer tal translúcida chama

O amor é sempre imprevisto, sempre surpreendente, sempre-sempre indeclinável
Como negar a incerteza que se oculta na tua necessidade

Sinto-te num sonho profundo, memória num tempo-porvir, espera sem sequer suceder

Do amor impossível diz-se visível sua impossibilidade

Da descrença e das suas invisibilidades ocupam-se os passos das sombras
Num desvendar de névoas desnudo tua claridade, corpo-contraluz contendo minha densa escuridão

Do amor impossível digo ser visível sua inevitabilidade

Como contradizer este luminar sentir
Como extrair a rara luz da luz exacta 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Morte






Pensa no mais vasto espaço que consigas imaginar
Posiciona-te ao centro, precisamente
Nem um horizonte avistarás
Retira da integralidade todo o objecto, um a um  
Suprime o tom violeta, o vermelho e o branco e toda a remanescente cor
Por um momento preserva somente um negro incolor, até que também este se dissipe
Segmenta do som todo o timbre, inibe qualquer ruído, a tua im-própria pulsação
Da percepção elimina a evidência restante
Anula a memória e a posteridade incógnita
Liberta o corpo do seu constrangimento im-próprio            
Encerra o olhar, suspende a respiração
Finalmente rompe o pensamento, inteiramente


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O PESO DOS PASSOS DADOS







O tempo é insustentável
(e o corpo não o sustém)

Pesa o passo mais que seu próprio peso
Pesa o passo dado e o que ainda nem se deu

Angustia-se a angústia em sua necessidade, intrínseca
Abate-se a crença em sua incerteza, inerente

Sim, insustentável é o tempo
(e a sua divergência não o sustenta)

A “noite terrível” será talvez obscura, terrivelmente
Sempre que o passado sobrevier no tempo, terrífico talvez


domingo, 6 de dezembro de 2015

ALÉM DAS FORMAS VISÍVEIS


Se o horizonte é o limite (da tua visibilidade)
Prolonga-te para além das formas visíveis

Num deslocamento intangível, estende a distância,
Distanciando-te, da perspectiva constante

Transcende a dimensão concrecta
Excede tal sensitivo constrangimento
Da incógnita evidência ignora a evidente percepção

Suprime dos convénios todos os limitados índices  
Desacredita toda a utopia reconhecida
Eleva-te acima de um mundo menor

Verás que todo o imaginário é plausível
E que nenhum delírio é ampliado

Alcançarás a dimensão não circunscrita do amor não transgressor


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Tempo das Idades Frias


Tenho o tempo das Idades Frias
E o peso das mãos inseguras
Envolvendo a granítica textura da memória

Nas raízes brancas que se alastram
Vislumbra-se um passar de Outono
Um entrever de recolhido tempo

Nos compassos súbitos que se escutam
Circulam ecos inconformes
Confinando ao passado a voz do esquecimento

«As vidas colidem aleatoriamente
À Terra recolhe-se colhido corpo»


segunda-feira, 27 de julho de 2015

INCIDENTAL


Um pensamento último antediz o silêncio
Antedizendo os tempos longos, densos, pesados

A morte morre sempre lentamente e a ausência nunca é só

Sobrevivem viventes memórias num pesar perseverante
Avivando num olhar doído a dor d´esvaído olhar

Subsistem instantes supostamente decaídos 
Infindavelmente revividos em dividido tempo

A inexistência é       súbita
Numa pluralidade d´ausências, subitamente é     presencial

Na irrevogável privação da imortalidade 
No interior de um tempo irreversível 
Na tessitura de sobrevir sem sentido
Se reescreve, póstuma
A desavença da incidental sobrevivência

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A Misteriosa Fraqueza do Rosto Humano


Não compreenderás a misteriosa fraqueza (que te confronta)
Não reconhecerás sequer o rosto

Não distinguirás, em difusa bruma, nenhuma utopia (evidente)
Nem uma única aspiração

Entenderás que existes, existes apenas, 
E que, brevemente, também essa existente continuidade cessará

Sentirás, então, que presságio algum te estava destinado
E que era a ti, somente, que incumbia determinar o caminho
(Exceptuando, talvez, os contornos dos atalhos incontornáveis)

Perceberás, tardiamente, a instabilidade do percurso que percorreste
Escutarás o progressivo ruir dos territórios (que não poderás deter)
A iminente insurgência de um tempo absurdo

Como Sartre, compreenderás a frágil existência do destino figurado
Ser Nada, senão a razão dialéctica de uma responsabilidade crítica

Recordarás, enternecido, a candura inaugural
E, por um brevíssimo momento, serás o tempo pleno
A remota idade, a vida remotamente feliz 
A época precedente à divergência das faces

Perceberás, mais tarde, a debilidade do sonho humano
Sentirás o progressivo desfazer dos fragmentos (que não saberás reter)
O gradual elevar do rosto inanimado

O levantamento de um tempo onde nenhum regressivo caminhar Te poderá regressar

Da vergada silhueta que (unicamente) subsistirá  
Não reconhecerás sequer o rosto






quarta-feira, 27 de maio de 2015

DO AMOR IMPOSSÍVEL



Do amor impossível diz-se invisível sua inevitabilidade

Como te dizer deste amor intransparente, que, sendo evidente, visível não é
Como incandescer tal translúcida chama

O amor é sempre imprevisto, sempre surpreendente, sempre-sempre indeclinável
Como negar a incerteza que se oculta na tua necessidade

Sinto-te num sonho profundo, memória num tempo-porvir, espera sem sequer suceder

Do amor impossível diz-se visível sua impossibilidade

Da descrença e das suas invisibilidades ocupam-se os passos das sombras
Num desvendar de névoas desnudo tua claridade, corpo-contraluz contendo minha densa escuridão

Do amor impossível digo ser visível sua inevitabilidade

Como contradizer este luminar sentir
Como extrair a rara luz da luz exacta


sexta-feira, 24 de abril de 2015

A SUPERFÍCIE PLURAL DA VOZ



Um inaudível silêncio inicia o precipício de um poema irrespirável

Ignorando da palavra a sua íntegra rasura 
Precipito a formulação de um verso inescutável
Sentindo, num único compasso, a superfície plural da voz

(Difícil é respirar (ardentemente) fraccionando a proporção do ardor)

Um intangível silêncio prolongando o princípio da irrespirabilidade
Suposta sobreposição de silêncio-silêncio, intermitentemente prolífero

Um silêncio inanimado no princípio passado de um informulado amor
  


segunda-feira, 30 de março de 2015

TARDIAMENTE

                               

Minha rara claridade
Minha breve lucidez
Tarde entardece tempo meu

Entardece e é já tarde
Impossível, talvez, adiar
Entardece e é já tarde 
Tardiamente o tempo apareceu

Sobre os ventos incompletos
Sobre os sossegos agrestes
Sobre as metáforas inconcludentes
Obscuridades rubras e rumorosas intermitências

Sobre os sonhos ocultos
Sobre os percursos ocasionais
Sobre as convulsivas dissolvências
Ermos brandos e lápidos lírios brancos

Só vozes vazias sussurrando causal contradição
Só raízes dispersas enraizando tardias essências

Entardece
Já é tarde 
Tardiamente o tempo me entardeceu 

Minha rara claridade
Minha tão breve lucidez




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

SOMENTE SILÊNCIO SÓ


(       Do silêncio nem um som     )


Na intacta respiração de um pós-verso
Perto se escuta silente mundo  

Somos silenciosamente só

O sussurro substantivo de uma incógnita
O verso disperso em esparso branco

Do ruído remanescente somos somente
A insonora lembrança de um timbre ausente

Os braços desgarrados como ramos que se enlaçam 
A voz cingida em cingido corpo 
A incerteza d´incorpórea fragilidade

Somos somente silêncio só

Somos só
O intacto som de um silêncio

(     Somente    )

                                                                                                                  .

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Volúvel Vinco da Hesitação


O espaço, estreito, estreita-se na inversa espessura dos corpos cumulados
Corpos temporários, sitiados na confluência perpendicular dos medos

Passos percorrentes percorrem diagonal espaço

Caóticos corpos convulsivamente expostos na vertical
Indiferenciadamente sobrepostos em   m
                                                        e
                                                        m
                                                        ó
                                                        r
                                                        i
                                                        a

Constrangidamente decaídos num in-movimento
Num temor permanentemente transitório
Na oblíqua incerteza d´absente ausência 

Percorrendo o volúvel vinco da hesitação

As ruas ruem soterrando nossos passos
Enquanto o percurso, inaudível, continuamente incontido - prossegue
Eventual

sábado, 1 de novembro de 2014

OBVIAMENTE BAUDELAIRE



Feéricos fumos formam fulgentes formas 

E os versos, em frenesim, formam mundos artificiais



São trechos tecendo a trama de um tempo aditado

Estrofes expostas expondo uma aliteração asfixiante



São silabas convergindo à sombra de um sofrimento sublimado



Um clamor lírico suspenso na inércia

Um verso verbalizando tal sentir apavorado



Ditos paraísos são terras irreais

Desejos químicos desdizendo a mente

Pérfidos risos rindo perdidamente



Júbilos expelindo do desespero a dor

Metafísicos medos de um temor transcendente


Confrontos opondo-se num opulento desencontro



Fulgentes fumos expandem etéreos espaços

Precisamente absurdos, absurdamente divinos

Idealmente ideais



Ditos paraísos são terras surreais

Delírios de loucura irresistível

Volúpias imateriais de convulsa devassidão



Rapsódia de um tédio luminante

Ofuscando


A clarividência é tão insuportável...




domingo, 28 de setembro de 2014

TEMPO-AMPULHETA


__________________________________________________________________________ 
Cedo cedi ao mundo as madrugadas                      E à noite me entreguei em sombra.
Do mundo queria todas as utopias       Todas se perderam      Cinza na ruína dos dias.
______________________E assim, que fazer de mim?________________________
Apavora-me      O ruído das fontes      O marulhar das horas      O gotejar do tempo
Passando impassível                                                               Sem me olhar
Sem escutar meu grito                                           Sem tocar meu choro.
________________E assim, que fazer de mim?________________
A idade decompõe-se.               Fracções.                Instantes.
A memória                                               multiplica os dias.
Lugar semi-breve                          Marcado em mim.
O espaço-tempo                  converge e colapsa.
Sufoca-me                                 O Espaço.
Excede-me                  O tempo.
Não        sou        mais
que           um
ponto
.
S
              O
                                                         N
                  H
O
.
    .    
.
Como areia escorrem letras,
Estilhaços.  Versos de vidro e de aço.
Instável             O solo que sustem os dias.
Volátil               O chão que suporta os passos.
Este tempo que me torna               Palavra de pedra
Ânfora quebrada                                   Desalinhado linho.
E _____  s ____  t  ____  r ____ e  ____ m ____ e____  ç _____o.
Como se fosse tempo                                                Recém-chegado,
Como se fosse dor             Recém-nascida           Em permanentes águas.
Bago de uva sem rosa                                                            Meu corpo-urze.
Aro de fogo circular                                            Cingindo meu redundante pensar.
_______________________E assim, que fazer de mim?_________________________
____________________________________________________________________________ 


domingo, 17 de agosto de 2014

Um Incêndio Arde em Silêncio



«Um incêndio arde em silêncio
Ardência convulsionada no contorno de corpo nu  
Irrespirável vestígio em crepitante surdina
Cinza incandescente contraindo inconstante esquecimento»

Marcar o verso lineal do pós-poema  
No sibilar de um nome sem anseio incerto
No enfrentamento do rosto que nos confronta

Dissentir a récita incessantemente repetida
O infausto chamamento de um verso-invernia

Percorrer no corpo o corpo do tempo
Segmentando do vento um sopro visceral

Negar o negro soberbo
Iluminando o território irregular do obscurecimento

Firmar num recém-tempo a neo-memória 
Num sofrido temor de furtivo futuro


.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A Inadiável Ceifa da Raiz



Do solo sustenho a superfície que sustém meus insustentados passos
O gravítico constrangimento que me amarra à terra
A insustentável deserção de uma órbita incircular

Sem prosseguir prossegue o tempo
Seguidamente usurpando sua utópica cronologia

Num flamejar d´etérea perenidade
Inflamam-se as chamas inertes
Ateiam-se os fogos perpétuos
Interdiz-se a circunstancial cinza de uma luz carbonizada

Sem prosseguir o tempo prossegue
Sucessivamente subvertendo seu andamento

Abre-se a sede num verso brevemente ardente
Seivas-correntes escorrendo convoluto corpo
Intimamente indagando seu interrompido movimento

Num sopro o sopro recua
Sem respirar, contrai-se o corpo ofegante

Sem prosseguir prossegue o tempo
Adiantando a inadiável ceifa da raiz

.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O síncope-som de um batimento




Na sua oblíqua supressão    o tempo é evasivo
Sucessivamente encurtando o síncope-som de um batimento

A imortalidade escreve-se num verso
No pulsar das palavras que transgridem o limite de uma existência perene

Inventamos o amor como se escrevêssemos um poema
Recriamos nosso rosto figurando nosso nosso-mundo

Recuperando do tempo inédito a sua inédita posteridade
Afastaremos   da angústia que nos cerca   a inutilidade de um tempo hostil

Iluminando   da sombra adversa   adensa adversidade
Reergueremos da profundeza dos séculos a sua submersa perenidade

E se à superfície surgir terminante indeterminação
E o prometimento de grandeza já não se souber cumprir
Perseguiremos no tempo fugidio a vívida memória de uma luminosidade  


sábado, 5 de abril de 2014

O Traço Vert|cal de um Círculo Inacabado




Do tempo | vasto | a mais sucinta ilusão |                        


A ordem das coisas é catastrófica
E incógnita é | sua dispersa disposição

A causa das coisas evola-se em sua intangibilidade
Assim | insondável | permanece a procedência que causa

E assim permaneço | num cíclico ressurgimento
No traço | vertical | de um círculo inacabado


O pretérito é princípio | na incerta medida do passado que lhe sucede
| No antepassar da desordem que | ordenadamente | o persegue

No interior de um círculo inacabado |
concebe-se | circuncêntrica | irregular espiral

Numa dialéctica fragmentária |
o tempo tangencial descreve-se numa infindável circunferência
                                                          | infinitamente fragmentada
                                                          | dubiamente tangente


| Do tempo | devastado | o mais longo rasto |


Procedo de uma idade procedente 
Subsisto | num deslocamento inerte
Na perenidade | remota | de uma demora circular
No crítico reordenamento do tempo | inevitável |