sexta-feira, 26 de junho de 2015

A Misteriosa Fraqueza do Rosto Humano


Não compreenderás a misteriosa fraqueza (que te confronta)
Não reconhecerás sequer o rosto

Não distinguirás, em difusa bruma, nenhuma utopia (evidente)
Nem uma única aspiração

Entenderás que existes, existes apenas, 
E que, brevemente, também essa existente continuidade cessará

Sentirás, então, que presságio algum te estava destinado
E que era a ti, somente, que incumbia determinar o caminho
(Exceptuando, talvez, os contornos dos atalhos incontornáveis)

Perceberás, tardiamente, a instabilidade do percurso que percorreste
Escutarás o progressivo ruir dos territórios (que não poderás deter)
A iminente insurgência de um tempo absurdo

Como Sartre, compreenderás a frágil existência do destino figurado
Ser Nada, senão a razão dialéctica de uma responsabilidade crítica

Recordarás, enternecido, a candura inaugural
E, por um brevíssimo momento, serás o tempo pleno
A remota idade, a vida remotamente feliz 
A época precedente à divergência das faces

Perceberás, mais tarde, a debilidade do sonho humano
Sentirás o progressivo desfazer dos fragmentos (que não saberás reter)
O gradual elevar do rosto inanimado

O levantamento de um tempo onde nenhum regressivo caminhar Te poderá regressar

Da vergada silhueta que (unicamente) subsistirá  
Não reconhecerás sequer o rosto






quarta-feira, 27 de maio de 2015

DO AMOR IMPOSSÍVEL



Do amor impossível diz-se invisível sua inevitabilidade

Como te dizer deste amor intransparente, que, sendo evidente, visível não é
Como incandescer tal translúcida chama

O amor é sempre imprevisto, sempre surpreendente, sempre-sempre indeclinável
Como negar a incerteza que se oculta na tua necessidade

Sinto-te num sonho profundo, memória num tempo-porvir, espera sem sequer suceder

Do amor impossível diz-se visível sua impossibilidade

Da descrença e das suas invisibilidades ocupam-se os passos das sombras
Num desvendar de névoas desnudo tua claridade, corpo-contraluz contendo minha densa escuridão

Do amor impossível digo ser visível sua inevitabilidade

Como contradizer este luminar sentir
Como extrair a rara luz da luz exacta


sexta-feira, 24 de abril de 2015

A SUPERFÍCIE PLURAL DA VOZ



Um inaudível silêncio inicia o precipício de um poema irrespirável

Ignorando da palavra a sua íntegra rasura 
Precipito a formulação de um verso inescutável
Sentindo, num único compasso, a superfície plural da voz

(Difícil é respirar (ardentemente) fraccionando a proporção do ardor)

Um intangível silêncio prolongando o princípio da irrespirabilidade
Suposta sobreposição de silêncio-silêncio, intermitentemente prolífero

Um silêncio inanimado no princípio passado de um informulado amor
  


segunda-feira, 30 de março de 2015

TARDIAMENTE

                               

Minha rara claridade
Minha breve lucidez
Tarde entardece tempo meu

Entardece e é já tarde
Impossível, talvez, adiar
Entardece e é já tarde 
Tardiamente o tempo apareceu

Sobre os ventos incompletos
Sobre os sossegos agrestes
Sobre as metáforas inconcludentes
Obscuridades rubras e rumorosas intermitências

Sobre os sonhos ocultos
Sobre os percursos ocasionais
Sobre as convulsivas dissolvências
Ermos brandos e lápidos lírios brancos

Só vozes vazias sussurrando causal contradição
Só raízes dispersas enraizando tardias essências

Entardece
Já é tarde 
Tardiamente o tempo me entardeceu 

Minha rara claridade
Minha tão breve lucidez




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

SOMENTE SILÊNCIO SÓ


(       Do silêncio nem um som     )


Na intacta respiração de um pós-verso
Perto se escuta silente mundo  

Somos silenciosamente só

O sussurro substantivo de uma incógnita
O verso disperso em esparso branco

Do ruído remanescente somos somente
A insonora lembrança de um timbre ausente

Os braços desgarrados como ramos que se enlaçam 
A voz cingida em cingido corpo 
A incerteza d´incorpórea fragilidade

Somos somente silêncio só

Somos só
O intacto som de um silêncio

(     Somente    )

                                                                                                                  .

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Volúvel Vinco da Hesitação


O espaço, estreito, estreita-se na inversa espessura dos corpos cumulados
Corpos temporários, sitiados na confluência perpendicular dos medos

Passos percorrentes percorrem diagonal espaço

Caóticos corpos convulsivamente expostos na vertical
Indiferenciadamente sobrepostos em   m
                                                        e
                                                        m
                                                        ó
                                                        r
                                                        i
                                                        a

Constrangidamente decaídos num in-movimento
Num temor permanentemente transitório
Na oblíqua incerteza d´absente ausência 

Percorrendo o volúvel vinco da hesitação

As ruas ruem soterrando nossos passos
Enquanto o percurso, inaudível, continuamente incontido - prossegue
Eventual

sábado, 1 de novembro de 2014

OBVIAMENTE BAUDELAIRE



Feéricos fumos formam fulgentes formas 

E os versos, em frenesim, formam mundos artificiais



São trechos tecendo a trama de um tempo aditado

Estrofes expostas expondo uma aliteração asfixiante



São silabas convergindo à sombra de um sofrimento sublimado



Um clamor lírico suspenso na inércia

Um verso verbalizando tal sentir apavorado



Ditos paraísos são terras irreais

Desejos químicos desdizendo a mente

Pérfidos risos rindo perdidamente



Júbilos expelindo do desespero a dor

Metafísicos medos de um temor transcendente


Confrontos opondo-se num opulento desencontro



Fulgentes fumos expandem etéreos espaços

Precisamente absurdos, absurdamente divinos

Idealmente ideais



Ditos paraísos são terras surreais

Delírios de loucura irresistível

Volúpias imateriais de convulsa devassidão



Rapsódia de um tédio luminante

Ofuscando


A clarividência é tão insuportável...