sexta-feira, 13 de setembro de 2013

DENTRO DO TEMPO



Um passo por dentro do tempo
Ligeiramente para trás                                                

Alterando a ordenação das horas
Contendo seculares invernias
Negando séculos sedimentados na espera  


Move-se o tempo
                   e o mundo inquieta-se

Estranhando o esplendor que na dor desponta
                                 num clarão de transparência fulminante


«Existem ainda versos por escrever
Palavras talvez por soletrar
                                               Nossos nomes
                                                 Nossos próprios nomes»



Um passo para dentro de um mundo
Um tempo anterior  

Destituindo interditos silêncios
Desfazendo a desordem das eras 
Reconstruindo na recorrência de um caos 
primitiva representação


Move-se o mundo
                   e o tempo inquieta-se

Estranhando a luz que da luz irrompe


«Existem gestos interrompidos
Promessas talvez por iniciar
                                                   Nosso tempo
                                                      Nosso único tempo»



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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Colapsa Convulso Solo Som






Colapsa convulso solo som
Na controvertida espiral do verso essencial
No controverso contorno do tempo que num incesso retorno nos contorna
Inquirindo as incertezas
Perpetuando as perplexidades


Colapsa convulso solo som
Espaço instável onde o esquecimento se dobra 
Ocultando o tempo numa enegrecida memória


«Nada existe
A b s o l u t a m e n t e  nada
Uma inexistente vaga só assim subsistirá»


Colapsa convulso solo som em denso mudo espanto
Todo o vazio é antecedido por espaços inúmeros
Antecedentemente preenchidos por númeras vozes


Colapsa convulso solo som
Sangra viva morte de uma escrita
Esvanece-te nas entrelinhas de um verso


«Cessa o tempo sem cessar em infindos infinitos
Cessa por cessar o tempo em infinitos gritos»


Colapsa convulso solo som
Sangra vida dor que vive num delíquio de infortúnios
Morre só tempo só falecido em textuais inexistências


«Nada existe
Não este ofegante respirar que me desmente
Nem o intervalo onde te quis habitar»



Colapsa convulso solo som
Sangra viva morte escrita 


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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Um Outonal Tremor de Abandono








Havia do tempo uma idade      uma secreta urgência    uma ausência por habitar           
Havia um passo estruturado percorrendo                       
Uma essência estrutural
Havia uma ideia                             
Uma utopia inebriada num lirismo de olhar


Depois vieram as chamas     as farsas   os dramas   
A lírica tragédia de uma voz insana
Vieram os fogos    os incêndios       a combustão
Invariadamente vieram vezes vazias          vazias várias vezes vieram


Onde havia um luminar andamento há agora um tropeçar
Medos       arvoredos      relevos          
Densos      penosos        profundos
Uma colisão de destroços que fissura as ruínas de um mundo devassado
Fragmentos sombrios              absurdos vítreos num quebrar de espelhos


Há uma descrença lenta que dentro adentra                   
Um outonal tremor de abandono                   
Um instável equilíbrio no desequilibro de um grito


Digo recolhimento num silenciar de tumultos         e ascendo à lírica lucidez da loucura
Digo caminho num trilhar de palavras     e descendo à fulgente insânia que me sustenta
Ao limite do poema


Se é sombra o que escrevo     se negro é o tom do verso 
Na sombra me inscrevo          da escuridão me confesso             se assim enegreci



Às vezes recuso            às vezes refuto                às vezes contesto  
A labareda que cerca     a insone lamúria              o dolente infortúnio
A silenciosa indolência e a silente desistência

Este indigente perecimento    ausente   informulado   inabitado


Recuso este impercetível alinhamento de proposições
Este esboço de linguagem onde me resto palavra

Inflexo poema que não endireita
Palavra-fronteira    talvez território
Se de mim já não depende
Se de mim se escapa


Recuso principalmente este canto confuso e esta verve perturbada
Esta oração na pena fecundada
Este letárgico dissenso em melancólica dissensão
Este tempo dizendo
nada


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sábado, 20 de julho de 2013

CRONOGRAFIA




Tenho uma cave de caixotes cerrados

Devidamente empilhados        

Ordenados na cronografia de um rosto



Tenho uma cave de faces vendadas 

Vedadas figuras

Solenes na aparência de um mundo



Tenho uma cave de incómodos silêncios

Indevidamente calados

Amordaçados silenciosamente

Ocultados no culto de um nome



Tenho uma cave de proscritos propósitos

Esquecimentos propositados

Inoportunos incêndios

Imolados em fogo-algum



Tenho do tempo a insanidade

E na cave     para nós      o reservado espaço





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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Cumplicidades




«Aproxima-te
Lentamente
Vem
Devagar
Percorre-me»


Da página desprende-se o verso
Palavras dispersando-se sobre o corpo
Íntimo sopro


Desvendando espaços
Desnudando passagens
Desvelando o caminho das águas

Escorrendo sobre as palmas


Do encontro a demora
Do movimento a suspensão


Definindo andamentos
Alongando cadências
Elevando pulsões
Oscilando sobre as copas

Uma mão que percorre
Um incêndio de pétalas



Das fragrâncias derramadas nas orlas
As róseas margens onde a sede se detém

Das pálpebras cerradas a urgência do fogo
A língua que invade vacilante ventre 


Um bramir irrompendo
                                           Longamente


Entrar  
Avultando  

Incorporar          no corpo
 o corpo latejante



Um espasmo e uma contração

Uma pausa semibreve
Uma inflexão


No contorno das esferas
O avesso espaço  
A seminal convulsão 



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sábado, 8 de junho de 2013

Vocabular Lugar





Diz-me da palavra o que a excede
Diz-me deste vocabular lugar
O verbo que o antecede
O termo que irá suceder



Desvenda das fontes os enigmas dos leitos
As subterrâneas correntes que movem o verso

A irregularidade substantiva das respirações
A oblíqua adjetivação das odes

A epístola extraviada na extremidade de uma outra aresta



Diz-me da palavra o que a devassa
A discordância dispersa de uma qualquer proposição

O pronome errado ciciado        
Ciciando a volúpia vertida sobre silente ventre   



Digo da palavra o que dentro é guardado
Metafórica alegoria de um dédalo vocabulário


O verso não é completo quando a palavra   s e p a r a

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sábado, 18 de maio de 2013

CLAUSURAS








                                                                                «O verso constrói clausuras
                                                                                Espaços retidos num tempo
                                                                                Claustros de errático temor
                                                                                Alongando infundadas esperas»



O mundo colapsa sepultando os versos
Fissurando a voz em ruínas


O desespero não se diz

não se escreve

não se canta


Espreita
No vermelhar raiado que avisto neste espelho



O corpo colapsa aluindo nas veias
O sopro em ruínas


A agonia não se escuta

                não se ouve

não se entende


É voz detida no tempo
Como a quimera trespassada que distingo neste nevoeiro


Anoitecem tardes frias
Anoitecem velhos ritos
Anoitecem irrefreáveis fervores


Somos do sonho
A tentativa
A hipotética via
O desentendimento


Dissoluções esféricas na métrica de um verso
                                                                        Infâmias


Possa o tempo afastar as palavras        contaminadas
As destrua               reconstrua            e as devolva intactas
Ao poema que te precedeu