segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quimeras Rasgadas no Ventre do Verso




I.

Como raiz rasgando árida terra
Como fissura fendendo o corpo-solo

Do ventre descende a recta       que me intersecta
E ao rosto ascende o pranto      como parto de dor

Enquanto a idade fenece            a destempo
Como sinal assinalando a vírgula        incerta


Assim me treme     a voz
Assim me temo      como desígnio
Enquanto o corpo se prenuncia chama
E medo
E cinza em pó


«São quimeras rasgadas no ventre do verso
São esventradas palavras de lodo e de lama
São texturas tecidas em ascética métrica
São inauditos ditos          sem continuidade»



II.

Como um rito induzido               influído é o tempo só
Infecundo caos onde ardo          e me extingo

Enquanto   chama a chama       se apagam todos os archotes
                                                                                                                              
Assim se prostra o tempo          como espaço prostrado
Assim se quebra o corpo           como vidro laminado


«São frias utopias
E desusadas rezas
São egrégios sacrários
Em igrejas profanas
São inquietas preces
E gritos     gritos       gritos»




III.

Persigo incólume           a incólume morte          
Em desentendido entendimento

Num funéreo verso a enfrento
Em descentrado contraimento

«Assim repulso este avulso tempo»

Enquanto a alma clama
                                               Ávida vida




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domingo, 17 de julho de 2011

Ilusões Incisas em Cinzas de Cristal







Repasso    o passo    cansado

Este percurso de recurvo curso

O compasso turvo que te fez verso

O tempo que se inscreveu inverso




Em retorno     regresso

Ao vidro do espelho      quebrado

Ao vulto   avulso             sem contorno

Ao devoluto mundo que te precedeu




«Eram alvas nébulas talhadas em cobre

Eram faces vitrificadas suspensas em sal

Eram ilusões incisas em cinzas de cristal»




Sustado    persiste      O corpo

Como pétrea estátua sem rosto

Como estático corpo de pedra

Como adro passado     em queda 




Na precisa inconstância das horas

Disforme se forma a sombra 

Assim se formando deformada memória




«Lágrimas que ardem como longa chama

Alongadas labaredas que do fogo se apartam

Ardentes flamas que queimam       sem combustão»




Mudas       cessam as palavras

Como mudo      é o silêncio 

O silêncio      que por dizer       se calou 




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sábado, 25 de junho de 2011

Roxas Lágrimas em Púrpura Dor





I.



Erguem-se eflúvios fumos

Esfumados rasgos de dor

Etéreas silhuetas elevam-se

Fumos negros em vapor



Traços de sombras em silêncio

Como obscuro relevo
                                     
                                       revelado na obscuridade




A memória      como negrura negra

O tempo         como negro negrume






II.



Agora que se calam             as cítaras

Agora que se quebram         os ulmeiros



Murmulham      nómadas            as palavras



                                                              Cada rosto    é teu rosto

                                                              Cada corpo   teu culto

                                                              Cada verso   teu lugar





Assim o silêncio se torna verbo

                                                 como verso confesso
  


                                                              Roxas lágrimas

                                                              Púrpura dor




III.



Sobre as águas

                          emergem

Vultos de fogo




Avultadas sombras em chamas

                                       
                                              Eflúvios rostos



            Fumos perfumados

                                          na dor








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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Do Outro Lado do Mundo os Mitos Nascem em Verso






Oculto-me       nas horas



Assim me inverto

Assim se verte o tempo
                                                     Incerto



Como um vaso
                                         vazando
                                                                     no vazio



Vertendo invisíveis transparências

Derramando transparentes invisibilidades



Sombras brancas que flutuam 



Fluem como memória

Afluem como palavra

Tornando-me             incessável poema



Como verso de um sonho insano

Que florescido           murchou




Abismos de lava suspensa

Oblíquas espirais              de chama triangular

Anguladas lâminas           em lábios diagonais 




Metades sobre metades

Partes de partes              incompletas

Como macilentos traços 
                                                de um retrato ensandecido




Delírios sobre delírios

Ecos perdidos                                (quase gritos)

Em emudecido sustenido




Mantos negros                  (talvez céus)

Detalhes de um destino                           por incumprir




Inabitável      é a hora

Ocultado       é o tempo que me pausa,      agora




Do outro lado do mundo         os mitos nascem em verso



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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pas-de-deux








I. Entré




«L  o  n  g  o   é o tempo
Estreito é o estrado.
Como um sustado compasso
Assim é o percurso num só passo»



II. Adage



Dos espaços sobra o espaço
O tempo sem lugar
O sonho fátuo
O corpo em fuga

      Dos tempos resta o tempo
O espaço sem lugares
O sonho fugidio
O corpo fugaz



III. Variations



Face a face
Descerro o rosto.                                                      
Nuas sombras sobrepostas                                                               
Testemunho sem memória                                                             

Como um tempo quebrado
Em lento deslizamento.
Passo    após     passo
Desfiz todo o movimento

Assim quebrada me quedo
Entre delidas linhas.
Como um corpo sem contorno
Entre névoas declinado


Rosto a rosto
Desvendo a face.
O relevo retirado
A oclusa obscuridade

Queda após queda
Em movimento me desfiz.
Como um tempo dobrado
No vértice das horas

Assim caído me quedo
Num inerte deslocamento.
Qual gesto incompleto
Inclinado sobre o verso




IV. Finale



«Agitadas águas
Submersas mágoas.
Como um corpo erguido
Recente se anuncia o tempo.

Comme un temps lié
Comme un Pas-de-deux»












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sábado, 14 de maio de 2011

Na Margem Dúbia do Verso







I.


Desta dor nada te posso contar

Por detrás do Sol, todo o mundo é negro

Assim como escuras são as sombras de todas as cores



Os sonhos decaem sem que o sintas

Tombam sem sentido

São errantes lugares

Precocemente entardecidos



O tempo passa

As horas ultrapassam-nos



Assim vamos caindo

Como caem todas as folhas

Como se quedam todos os versos




II.


Desta frágua nada te posso dizer



É flama que extingue

É lama que alaga

É água que afunda



Reclusos passos que nos sepultam

Numa sepulcral clausura

Num claustro de vapores



Fraga sobre fraga

Fumo sobre fumo



Onde cada lágrima é um mundo que se ausenta

Em silêncio



Assim se perdem todos os sentires

Assim se pausam todos os saberes




III.


O tempo é um ciclo de ciclos composto

Decomposto de espaços circulares

Que assomam e se dissipam

Em circunstanciais circunferências

Progressivamente menores



Opaca capa nos aguarda

Enquanto nos guardamos

Num espaço d’ espera

Enquanto nos restamos

No tempo que resta



Na margem dúbia do verso




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sexta-feira, 22 de abril de 2011

E Assim Restam Todos os Altares






Trago na mão as palavras

Ruídas preces
Rezas em ruínas
Rudes cinzas

Idioma perdido
Oculto culto
Cínzeo credo
Crivado em névoas

Nublada negrura que perdura
Negrume
Escritos feridos
Ritos
Dor
Lume

Estranho estanho
Alfabeto estranho
Idílico cilício
  

«Voltarás em madrugadas»

Predita predição
Perdição redita


Digo,
Todas as profecias se cumprem

Reescrevo,
Negro é o silêncio quando a fala se perde
E a linguagem desvanecendo    permanece


Solenes vozes
Escutadas em eco
Como quebrados versos
 Em queda
Na partida dos tempos

Como súplica   
Em suplício redentor
  

Assim
Deserto
Resto
E assim restam todos os altares
Espaços abandonados
Sânscritos lugares


Onde o mito se inscrevia
Inscreve-se agora a noite
Prescrita
Em torpor
Como sombra em seda trajada


Cedo irão nascer
Ásperas sarças
Rupestres flores
Agrestes ciprestes
Talhados na dor

Como som
Como sino
Como sina
Como destino
Como silvo
  
Palavras rasgadas
Como rasgos nos céus
Esquivas alquimias
No terminus dos dias


Trago na mão as palavras

«Meus versos são gestos
Traços de teu traço
Éteres fragmentos
Etéreos espaços
...  gravados»


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