domingo, 2 de dezembro de 2012

A Asfixiante Paradoxia da Póstuma Morte








Cai 

Calada 

A Noite



Caem sombrosas sombras em sombria secessão



São soturnos vultos de inominado nome

São sussurrantes sons em soturna cadência




                                                          «Nove vezes a face nos assola

                                                           Nove rostos nos assomam em memória

                                                           Nove terços somados como partes

                                                           Nove novenas em verso formando tempestades»






Calada

Cai 

A Voz




(                 Entre nós há um espaço de silêncios                  )





Uma oblíqua distância em muda redundância 

Uma indizível ausência em emudecimento



Um redutivo mutismo reduzido em verso

Como excesso que o excede



Uma silente sujeição em seguimento

Como paradoxal tangente à enunciação




                                                              «Perene pena pendente permanece

                                                               Vago vazio vagando vaga voz 

                                                              Figurado fogo fragmentando a foz»





Cai

Descrente

O Crente



Sacra sucumbência em altar sacrificante 

Leda pena na seda sangrada



                                            «Efémero multiplicador em ímpar equação»




Penitente indulgência ou presença assimétrica

Crença na simetria existente na ausência



                                           «Fátua figuração de um mundo fulgente»



 


Decaído

Cai

O Mote




«Na supérflua asfixia da perplexidade

Na asfixiante paradoxia da póstuma morte»




Cai

Decadente

A Decadência




Cai amorfo o verso         em alvoroço



.

18 comentários:

  1. Poeta

    Que dizer perante o teu talento para entrelaçares palavras e sentimentos com uma profundidade que não me atrevo a comentar...eu posso sentir e tu sabes.

    Um beijinho
    Sonhadora

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  2. Como negro gelo caíndo
    Num manto sombras ocultas que segredam preces
    Muda reprimida assolada (cala-se a voz)

    Espaços de tempo (som)
    Tortuosas distâncias em abundância
    Inexprimíveis, como secos espinhos mudos

    Contraditórias vozes anunciam a pena
    (Vazia ) onde espera a hora , o principio do fim.

    Partem-se os terços que sucumbem em dor
    (só) sem sombra igual

    Na desilusão entristecida
    Morrem as palavras admiradas absurdas posteriores ao fim
    Em tumultuosa queda .

    Extrema a beleza da tua escrita
    Mas lancinante na Alma, Sempre incomparável tua poesia
    Um prazer ler-te.

    Beijo

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  3. http://www.youtube.com/watch?v=RElGrczrf-E
    Arturo Stalteri - An Ending

    leio(te) ao som desta melodia e sei do alvoroço do verso sem mofo.
    sei da morte que não é mote, na decadente de_cadência
    penitência
    para o crente que cai
    em pecado
    santificado pelo perdão entre nós nunca haverá noite apenas horas paradas
    e a tua poesia é o relógio de sol de tantas vidas.
    Bj.º

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  4. As vezes, a existência nos pesa como numa queda profunda, como

    num escurecer das lembranças em redundância de um tempo

    intocável,mas mesurável nos espaços do silêncio...

    E no cenário do mundo,as cortinas são tênues na efemeridade

    dos personagens,o palco gira...

    No espaço do sentir,o tempo se inscreve em música,construido

    por silêncios que decifram significados,além do comum,exato

    visível.

    A tua arte poética é esse tempo inscrito por música rara,

    beleza ímpar e complexidade profunda que nos alvoroça

    (inquieta),nos silencia(paralisa) e nos encanta,arrastando

    enigmaticamente para os nossos abismos...

    Beijo,querido amigo e poeta mestre!


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  5. Cai

    Decadente
    A Decadência
    Cai amorfo o verso em alvoroço

    Morre -se muito antes de cair...

    Excelente!Para ler e reler porque é imenso o seu poetar.

    Beijos.

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  6. Cai a pena entre os dedos da poeta
    nove vezes gritou a poeta
    nove horas nasceu a poeta
    e as nove quis morrer:
    entre papéis mal escritos,
    linhas tortas, tinteiro virado
    e um rastro de incompreenssão...
    19 era o dia do seu nascimento
    9 era a hora da sua chegada ao mundo
    9 era o seu número preferido
    mas não pode escolher a hora da partida
    apenas o dia
    nove!

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  7. Olá, Filipe,

    Cheguei até cá pelo blog "Teoria do Caos", e gostei muito do espaço que encontrei. Voltarei mais vezes, para ler com mais calma e para descobrir as novas palavras!
    Parabéns pelo blog.

    Beijo

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  8. Filipe, tu sabes que esse poema me inquietou desde a primeira leitura dele, e cada vez que o releio, é como se eu estivesse diante de um novo poema - desde que o publicaste que eu dialogo com ele, que eu me inquieto com ele, que eu venho cá lê-lo -, como se nas minhas infindas leituras ele se multiplicasse nove mil vezes (lembrei-me de "Nove, Novena", uma obra do Osman Lins, um dos meus autores preferidos, creio já ter comentado contigo). E como o autor aqui citado no parêntese, cada poema seu é uma ruptura com o anterior, ainda que em sua estrutura, sejam parecidos. A cada novo escrito, é como se eu me deparasse com uma "metalinguagem aninhada", onde eu e minha interpretação do poema, nos abstraímos de tudo o que nos cerca, e apenas o poema nos salva da própria solidão exigida pelo ato, porque é a leitura de nós mesmos, a escrita de nós mesmos.
    Uma narrativa macro, se entrecruzando com a micro-narrativa, onde uma dá suporte à outra, (apenas) para demonstrar o quanto cada estrofe do poema têm vida própria e in(ter)dependência uma da outra.
    E que fôlego lírico, que sopro lírico, e como gosto do seu estilo poético.
    Obrigada por tanta emoção sentida diante de mais essa obra sua!

    Um beijo!

    P.S.

    Aquele é o poema do Pessoa que mais gosto, e em especial aquele fragmento. Se eu tivesse a capacidade de escrever algo daquela grandeza, eu não tentaria escrever mais nada, rs

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  9. Um gosto ter encontrado este seu blogue e a sua poesia.
    Gostei. Já agora aproveito para desejar a si e sua
    Família um FELIZ NATAL.
    Irene Alves

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  10. O verbo cair não faz cair o seu poema. Dá-lhe textura e reune-o.
    E o verso, a que chama amorfo, mas com muita qualidade, até fica, em alvoroço. Mostra-se.
    A sua poesia não é nada fácil de interpretar.
    Só quem a escreve, a sabe dedilhar.

    Abraço.

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  11. E a maior beleza de seu poema está na caída dos versos, eis que estes não morrem e não conhecem a singularidade das datas e do tempo. Abraços

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  12. Poeta

    Passando hoje apenas para agradecer a presença carinhosa no meu aniversário, fiquei emocionada.

    Um beijinho
    Sonhadora

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  13. Li e reli. Atentei na estrutura e tentei inferir a lógica de cada mote, ao alterares a sua posição. Será daí que partirei para a análise. Vai ser desafiante (ainda não tenho o espírito liberto para me entranhar neste adensado escrito)...

    Para já, um bjo, amigo Filipe

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  14. Meu querido Poeta

    Que todos os teus dias sejam Natal e do coração nunca se apague o sol
    Que todos os momentos sejam plenos de felicidade...amor e esperança
    Que todos os sonhos se transformem em realidade com a força do amor
    Que o espírito do verdadeiro Natal renasça nas mãos de uma criança

    Os meus votos de Feliz Natal junto de todos que te são queridos e
    que a felicidade e o amor estejam sempre presentes na tua vida.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  15. Um cair sem fim
    No buraco negro da noite...

    Grande poeta!

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  16. A Dani já leu e poetisou sobre este teu poema notável (eu também) ... fiquei cismático com a íntima idade ... não resisto a andar à volta das tuas palavras :

    Eu e a minha idade
    pública !
    Eu e a minha priva(c)idade
    íntima
    que do respeito pelos espaços
    complementos perfeitos do eu ...
    social
    se faz - ou deveria fazer -
    o eu universal !

    Abraço e votos dum 2013 muito feliz .

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  17. Já tudo te foi dito sobre o poema, relevando a análise feita por”Canto da Boca), sem desprimor quem te comentou.
    Neste tempo , que é esparso, queria relevar a sequência dos “motes”, a repetição de alguns vocábulos e a sua propositada alternância; a fixação da noite, a relevância da voz(calada), a particularização do crente(descrente) e o enfoque no Mote (decaído) para chegar à Decadência. A noite, escuridão, foi “mote” para uma “morte” anunciada da pessoa e seu Eu poético. Poema de descrença, com hábil intenção de repetição de algumas consoantes (como se foram sibilinas), adequadas à finalidade da mensagem.
    Poema profundíssimo, quase niilista.
    Sinceros parabéns, amigo Filipe.
    Bjo

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  18. Correção: sem desprimor de quem te...

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