sábado, 15 de outubro de 2011

Memórias de um Rubro Outubro






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 I.

Horas sobre horas
desordenadas

Utopias decaídas numa qualquer cadência
Passos quedados num compasso qualquer


O pêndulo marca o tempo que o movimento marca
Todo o silêncio guarda uma palavra


«Negra capa esvoaça
Esvoaça negra a capa»



«Eram ardentes mágoas                   Fogo no fogo forjado
Eram espessas sombras                    Em negro sombreado
Era espera em espera                       Luz em escassa luz»




II.

Tempos sobre tempo
                                   desordenado

Cinco tardias madrugadas
Cinco noites entardecidas


O verso esventra a dor que a voz cala
Toda a palavra guarda um silêncio


«Esvoaça negra capa            Esvoaça»



«Dez delirantes pedidos       travaram a treva
Dez trevos perdidos              tragaram a terra      
Dez sopros partidos              apartaram o vento
Dez espaços repartidos        repartiram o tempo»




III.

Às doze
Doze badaladas se deram
Doze rasgos se fenderam
Rasgando doze rachadas fissuras

Às doze vezes
Doze vozes se ergueram
Soprando doze segredados segredos

Aos doze cantos
Doze cânticos se escutaram
Como coro de sagrada profecia



«Vosso será o tempo que agora nasce
Vossa será a palavra que agora germina
Vossa será a hora que fará do dia     dia»



IV.

Do tempo o tempo surgiu
Da hora a hora nasceu
Da palavra emergiu a voz



«São trovas
São contos
São histórias

São memórias de um calendário»


Do quinto
Das doze
Daquele Rubro Outubro


6 comentários:

  1. Olá amigo poeta, que coisa deveras interessante... Na minha agenda há um poema escrito falando das doze badaladas, mas é claro, nunca tiveste acesso à minha agenda, mas que é estranho ler toda uma parte parecida...isto é... Pois, o amigo poeta também tem uma misteriosa atração pelo tempo que não é o tempo que agrada, mas aquele que contorce a alma...Sabe, amo Albert Camus, não sei se você já o leu, ele costumava dizer "Toda a infelicidade dos homens nasce da esperança". E toda a esperança precisa de tempo para o ser... Como semente que se planta, mas não há tempo para ver o que vai nascer...Hoje não deixarei um poema porque estou deveras triste, diferente de O estrangeiro de Camus que nada sentia, porque era alheio à percepção dos sentimentos... Hoje estou com os olhos para baixo porque quanto mais penso no tempo, mais chego a conclusão: O tempo me pede felicidade e a felicidade me pede tempo.
    Teu poema está lindo e cheio de simbologias que noutro momento da minha vida eu as interpretaria, mas agora meu espírito fechou-se para as coisas não óbvias, porque ando na fase em que Camus diz "E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim
    um verão invencível...E enquanto isso, a vida vai passando, porque o tempo não nos perdoa...

    Parabéns amigo poeta, teu texto está um espetáculo!

    Espero que vc um dia vá ao lançamento do meu livro, estou pensando em fazê-lo junto com o Luiz. Seria mais fácil para nós dois fazer o lançamento juntos. mas isto é para dezembro ou Janeiro, ainda estamos vendo.

    abraços

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  2. Eu saí tropeçando pelo poema, buscando um sentido mais ordenado em mim, depois da hecatombe que ele me causou.
    Primeiro fiz a leitura silenciosa; na segunda vez, em voz alta; na terceira, ouvi-te, assim como ouvi as doze badaladas do meu relógio imaginário que zera o tempo naquele preciso momento, mas não zera absolutamente nada do vivido. Porque percebi finalmente que o tempo é uma metáfora;

    num segundo momento, e não sei o porquê, associei as 'doze badaladas' aos 'Doze Trabalhos de Hércules' - sendo 'os pomos de ouro do Jardim das Hespérides' -, às folhas 'Daquele Rubro Outono', outra vez recorrente, o tempo e a estação, em mim;

    e ainda imaginei estar diante, dentro de uma aliteração aqui: 'Esvoaça negra capa Esvoaça»

    «Dez delirantes pedidos travaram a treva
    Dez trevos perdidos tragaram a terra
    Dez sopros partidos apartaram o vento
    Dez espaços repartidos repartiram o tempo»;

    e ainda quis encontrar alguma referência aos 'Cântico dos Cânticos', o que demonstra quão desordenada deixou-me o seu poema!

    Espetacular!

    Desculpe ter me alongado no comentário.


    Um abraço, Filipe!

    P.S.
    Caso não consiga o livro, Na Utopia sou Profeta, por aqui, como seria possível obtê-lo?

    ;)

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  3. Adorei...o tempo nosso aliado ou nosso inimigo!
    Beijos.

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  4. ao rubro...a tua voz de Profeta em tons de ti.
    A.d.o.r.e.i

    (se definirmos o tempo, esgotamo-lo?:-))
    beso

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  5. Poeta

    Que dizer...quando as palavras são memórias por dentro do tempo.
    Como sempre...és IMENSO.

    Deixo um beijinho
    Sonhadora

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