segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quimeras Rasgadas no Ventre do Verso




I.

Como raiz rasgando árida terra
Como fissura fendendo o corpo-solo

Do ventre descende a recta       que me intersecta
E ao rosto ascende o pranto      como parto de dor

Enquanto a idade fenece            a destempo
Como sinal assinalando a vírgula        incerta


Assim me treme     a voz
Assim me temo      como desígnio
Enquanto o corpo se prenuncia chama
E medo
E cinza em pó


«São quimeras rasgadas no ventre do verso
São esventradas palavras de lodo e de lama
São texturas tecidas em ascética métrica
São inauditos ditos          sem continuidade»



II.

Como um rito induzido               influído é o tempo só
Infecundo caos onde ardo          e me extingo

Enquanto   chama a chama       se apagam todos os archotes
                                                                                                                              
Assim se prostra o tempo          como espaço prostrado
Assim se quebra o corpo           como vidro laminado


«São frias utopias
E desusadas rezas
São egrégios sacrários
Em igrejas profanas
São inquietas preces
E gritos     gritos       gritos»




III.

Persigo incólume           a incólume morte          
Em desentendido entendimento

Num funéreo verso a enfrento
Em descentrado contraimento

«Assim repulso este avulso tempo»

Enquanto a alma clama
                                               Ávida vida




.

9 comentários:

  1. Olá, meu amigo poeta! Lá no Távola de Estrelas existe uma página chamada Só Para Os Irremediavelmente Tristes, a criei para poder exprimir de forma livre os versos que nascem à sal e sangue...

    Ser o que sou,
    torna-me triste,
    porque não caibo
    no tempo em que estou,
    e se o acaso,
    assim me criou
    é para que toda a gente
    possa rir-se da minha dor...

    Agora em agosto será o lançamento do meu livro pela waf aí no Porto(se tudo continuar dando certo),gostaria de convidá-lo para este evento. Será uma honra. Depois passo o dia correto.

    Abraços, meu amigo poeta!

    ResponderEliminar
  2. Nós, sempre insaciados, a clamar por mais tempo...
    Belo poema, abço.

    ResponderEliminar
  3. Belo como sempre...a constante insatisfação, na eterna procura ! Um beijo!

    Cláudia

    ResponderEliminar
  4. lindo amigo, a eterna busca, nossos medos e desencontros, em carne viva.

    beijinhos pra ti...

    ResponderEliminar
  5. O poema faz amor com as palavras...devora bocados de solidão...despe-se na noite...veste-se de paragrafos...bebe-se lentamente...soletra-se docemente...uma página em branco esperando a
    ilusão.
    O poema é a voz que se entorna no papel...um grito infinito...um vazio intensamente cheio...uma dança sensual...vestida de ausência e repleta de solidão.
    Adoro sempre o que escreves...e hoje foi isto que senti ao ler-te.
    Beijo
    Sonhadora

    ResponderEliminar
  6. belo.
    mas apetece-me um poema em que sorrias à dor, com altivez. e passo apressado. e...
    ...deixo abreijos.

    ResponderEliminar
  7. ora vejo uma elegia; ora vejo uma luta entre a vida, a ilusão e a morte!
    mas algo rasga o ventre da terra e há de brotar!

    ResponderEliminar
  8. Belo e complexo poema num anunciar intenso do ser em decadência total...
    bjos
    manuela

    ResponderEliminar
  9. Entendo-te desentendido.
    A alma em fuga.
    Sabes que há um lugar onde corpos e almas comungam em dias santos?
    B
    e
    i
    j
    o...de luar.
    (Luna)

    ResponderEliminar