sábado, 14 de maio de 2011

Na Margem Dúbia do Verso







I.


Desta dor nada te posso contar

Por detrás do Sol, todo o mundo é negro

Assim como escuras são as sombras de todas as cores



Os sonhos decaem sem que o sintas

Tombam sem sentido

São errantes lugares

Precocemente entardecidos



O tempo passa

As horas ultrapassam-nos



Assim vamos caindo

Como caem todas as folhas

Como se quedam todos os versos




II.


Desta frágua nada te posso dizer



É flama que extingue

É lama que alaga

É água que afunda



Reclusos passos que nos sepultam

Numa sepulcral clausura

Num claustro de vapores



Fraga sobre fraga

Fumo sobre fumo



Onde cada lágrima é um mundo que se ausenta

Em silêncio



Assim se perdem todos os sentires

Assim se pausam todos os saberes




III.


O tempo é um ciclo de ciclos composto

Decomposto de espaços circulares

Que assomam e se dissipam

Em circunstanciais circunferências

Progressivamente menores



Opaca capa nos aguarda

Enquanto nos guardamos

Num espaço d’ espera

Enquanto nos restamos

No tempo que resta



Na margem dúbia do verso




.

4 comentários:

  1. Poeta

    No outro lado de nós...no lado de lá do sonho ficou a vida...por vezes apenas envolta numa lágrima silenciosa a escorrer no tempo.

    Um beijo
    Sonhadora

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  2. Muito lindo esse seu poema. Triste, mesmo não podendo dizer, deu prá sentir!

    Bjos.

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  3. O título do poema já é ineuxarível, e quando prosseguimos na leitura dele, deparamo-nos com uma 'dor que não nos pode contar', porque a dor é mesmo muito solitária e cada um/a sente a sua ao seu modo. E continuas numa poética que recorre a antropologia: "Por detrás do Sol, todo o mundo é negro", e continuas em suas deambulações, metáforas e conceitos.
    Profetizas a passagem do tempo, ainda que não queiramos, ele existe, passa e passamos com ele.
    E desfias hermetismo; desafia-nos com seus versos e vivências, levando-nos a refletirmos sobre as nossas verdades, relaçoes, sentires e experiências!

    Essa poesia me pegou, obrigada por tê-la escrito!

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  4. Belo canto evocando uma dor que não pode ser contada.
    "Desta dor nada te posso contar"
    ...é voz de poeta!
    bjos
    manuela

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